Benefícios econômicos e socioambientais da biotecnologia para a cultura do feijão no Brasil

Por Jorge Attie

 

O feijoeiro-comum é uma planta anual herbácea, trepadora ou não, pertencente à família Leguminosae e gênero Phaseolus. Está classificado como Phaseolus vulgaris L. e é originário das Américas, mais especificamente na região sul dos Andes, embora muitos estudiosos associem sua origem ao México, região da mesoamérica, como planta de variedade crioula.

O fato é que o feijão é um alimento importantíssimo na alimentação e história humanas. O feijoeiro era cultivado no Egito e na Grécia, onde recebia cultos em sua homenagem, por ser considerado símbolo da vida. Já os antigos romanos o usavam nas festividades e como pagamento para apostas. Além disso, a disseminação do alimento era facilitada com o advento das guerras, pois o grão era importante alimento dos soldados.

A área mundial com feijão, colhida em 2013, atingiu 29,2 milhões de hectares. A Índia responde pela maior área colhida com a cultura, chegando em 9,1 milhões de hectares, ou 30,8% do total. O Brasil aparece em segundo lugar, com 3,1 milhões de hectares, ou 10,5% da área total, seguido por Myanmar (2,7 milhões de hectares ou 9,1% do total), México (1,7 milhão de hectares ou 5,9% do total) e Tanzânia (1,3 milhão de hectares ou 4,4% do total). Outros países compuseram 39,1% do restante, ou 11,6 milhões de hectares.

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Embora a Índia tivesse a maior área colhida em 2013, ocupou a segunda posição em relação à produção, com 3,6 milhões de toneladas, atrás de Myanmar, que lidera a produção mundial com 3,8 milhões de toneladas de feijão para o mesmo ano. O Brasil, que por muito tempo liderou o ranking, atualmente posiciona-se em terceiro lugar, atingindo 2,8 milhões de toneladas. A produção mundial do feijão ficou em 23 milhões de toneladas em 2013, uma queda de 3% em relação ao ano anterior. Os principais países produtores são também grandes consumidores, o que não gera excedentes de produção para a realização de comércio exterior, além de existir uma ampla variedade de tipos de feijão (carioquinha, preto, branco, feijão-de-corda, etc.), e diferentes hábitos alimentares em cada país. No caso do Brasil, o tipo mais consumido é o carioquinha, que tem baixíssima aceitação internacional.

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A produção mundial do grão concentra-se em países em desenvolvimento, pois, dos 30 maiores produtores (90,2% do total), apenas dois são classificados como desenvolvidos, sendo eles EUA e Canadá. Observa-se, portanto, que a cultura do feijoeiro é de grande importância para a população de baixa renda nos países produtores, já que o grão muitas vezes atua como proteína substituta à de origem animal, superior em preço.

No Brasil, o feijão se destaca como importante fonte de proteínas, além de carboidratos, vitaminas, minerais, fibras e compostos fenólicos com ação antioxidante, que podem reduzir a incidência de várias doenças. A maior parte das cultivares de feijão é composta de aproximadamente 25% de proteína (aminoácido lisina), mas é pobre em aminoácidos sulfurados, o que é compensado na mistura com cereais na alimentação, especialmente o arroz, formando o prato tradicional do brasileiro. De acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (Pesquisa de Orçamento Familiar – 2008/09), o consumo de feijão tem apresentado queda quando relacionado ao crescimento da renda familiar, substituído por carne bovina como fonte proteica.

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A situação do agricultor que semeia é de indecisão. O custo de produção tem se elevado (em Minas Gerais, por exemplo, o custo de produção do feijão ”das águas” de 2013/14 cresceu em 24% no comparativo com 2012/13), e a dificuldade de controle das doenças tem sido cada vez mais frequente. Uma das doenças considerada de maior impacto na safra de feijão é o vírus-do-mosaico-dourado - Bean golden mosaic virus (BGMV) – que pode reduzir a produtividade do feijoeiro em até 80%. Essa doença tem como vetor a mosca-branca (Bemisia tabaci – raças A e B), que ataca outras culturas de rotação e sucessão, ou mesmo em cultivo consorciado, como soja, milho, algodão e tomate, causando enormes dificuldades de controle da própria praga e prejuízos advindos do aumento da incidência do vírus BGMV.

Além dos fatores específicos de manejo, o mercado de feijão tem sofrido, pois a produção aumentou apenas 0,8% ao ano nos últimos dez anos, enquanto a área semeada reduziu 2,2% ao ano no mesmo período. Então, a produtividade foi a grande responsável pela manutenção do avanço da produção, expandindo 3,1% ao ano desde 2004/05. Vale lembrar que, mesmo que o consumo per capita do Brasil esteja caindo (uma média de 16,9 kg/hab/ano em 2004/05 para 16,0 kg/hab/ano em 2013/14, queda de 0,5% ao ano), o déficit de produção no país ainda existe, pois o contingente produzido atualmente é insuficiente para atender a demanda interna, fazendo-se necessário importar o alimento da China, da Argentina, da Bolívia e do Paraguai, o que, em última instância, prejudica o consumidor final, pois o preço do produto tende a ser mais alto.

Diante desse contexto, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, por meio de parcerias entre seus departamentos, como Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen) e a Embrapa Arroz e Feijão, desenvolveu, com recursos próprios, o feijoeiro geneticamente modificado resistente ao vírus BGMV, denominado EMBRAPA 5.1. A transformação transgênica ocorreu com a introdução de um fragmento do RNAi (RNA interferente) do vírus BGMV no genoma do feijoeiro, através da biobalística, método comumente utilizado em transformações genéticas. O intuito da pesquisa foi promover a melhoria do manejo do agricultor, em razão do aumento de produtividade obtido pela resistência à doença, além de facilitá-lo via redução de aplicações de inseticidas para controle da mosca-branca, pois, na planta suscetível à virose, o controle do vetor tem que ser intenso, o que leva ao aumento das entradas com inseticidas nas lavouras.

Portanto, o evento transgênico para a cultura do feijão tende a trazer grandes benefícios ao produtor rural, com o aumento de produtividade e diminuição dos custos de produção. O pequeno agricultor, característico da produção de feijão brasileira, será o mais favorecido, já que muitas vezes não possui recursos disponíveis para a aquisição de defensivos agrícolas para o controle de pragas, e poderá ter sua produtividade elevada através da menor infestação de virose na planta. Em última instância, o consumidor final será também beneficiado, pois terá maior oferta de alimento, diminuindo o déficit de consumo, como também menor toxicidade pela redução do uso de inseticidas.

Tal evento transgênico foi aprovado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança - CTNBio para cultivo comercial em 2011 e a previsão da detentora da tecnologia é de que o produto seja disponibilizado para cultivo apenas em 2016, sendo somente sobre duas variedades do feijão “carioquinha”. A defasagem entre a liberação comercial e a previsão da comercialização configura certo despreparo na condução da tecnologia. Tomando como referência outros eventos transgênicos nas culturas da soja, milho e algodão, no momento da entrada do pedido de liberação comercial de uma tecnologia, ela já tem que estar testada, preparada e com os procedimentos posteriores encaminhados, para que não haja atraso entre a liberação e a real comercialização.

Alguns eventos geneticamente modificados apresentaram esse atraso, entretanto devido à aprovação da tecnologia por países importadores/consumidores, como foi o caso da soja Intacta RR2 PRO®, que demorou a ser liberada ao sojicultor, pois o maior parceiro comercial do Brasil, a China, protelou por quase dois anos ao aprovação do consumo da oleaginosa. Não é o caso do feijão GM, que foi desenvolvido para atender ao mercado interno. Outro fator negativo é a falta de sementes/variedades adaptadas às diferentes regiões produtoras, pois o grão é produzido de Norte ao Sul do Brasil, com suas diferentes variações edafoclimáticas.

Caso fosse disponibilizado na safra posterior à sua aprovação pela CTNBio, o feijão transgênico seria semeado já na safra 2012/13. Portanto, o atraso completou duas safras (2012/13 e 2013/14), e já se prolongou para a terceira safra 2014/15. O agricultor é o maior prejudicado pela demora na disponibilidade de sementes, pois nas duas safras anteriores já poderia ter elevado sua produtividade e reduzido o custo de produção, reduzindo a pressão sobre os preços finais.

Perante essa problemática – e levando em consideração o potencial da tecnologia transgênica para o feijoeiro – no sentido de facilitar e simplificar o manejo do produtor rural no campo, aumentar sua produtividade e promover o desenvolvimento econômico da agricultura no país, principalmente em se tratando do pequeno agricultor, foram estimados os benefícios econômicos e socioambientais potenciais que poderiam ter sido capturados nos anos de 2012/13 e 2013/14, caso a tecnologia já estivesse em solo.

Tomando-se por base uma adoção potencial de 15% em 2012/13 e 35% em 2013/14 (estimativas baseadas em adoção de outras tecnologias, como soja e milho), a redução de custos potencial com a diminuição nas entradas com defensivos somada ao aumento gradual de produtividade da tecnologia (comparada ao produto convencional para as três safras - “feijão das águas”, ”seca” e ”feijão irrigado”), o benefício total potencial calculado equivaleu a R$ 686 milhões.

Para critério de comparação, o benefício alcançado pela soja geneticamente modificada nos dois primeiros anos de adoção foi de R$ 16,9 milhões. Para o milho GM (verão + inverno), as duas primeiras safras geraram R$ 3,5 bilhões. O valor de benefício gerado pela introdução do algodão transgênico nas duas primeiras safras correspondeu a R$ 37,5 milhões. Portanto, o potencial de geração de benefício econômico do feijão resistente ao vírus do mosaico dourado só ficaria atrás do milho transgênico, já que, somando as três safras do grão, tem-se um cálculo triplo dos benefícios advindos.

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Dos ganhos totais, 87% seriam capturados pelo produtor rural, sendo 80%, ou R$ 549 milhões, através do ganho de produtividade, e 7%, ou R$ 48 milhões, com a redução dos custos de produção. A indústria receberia também o benefício (13%) pelo valor agregado que a tecnologia adicionaria ao setor, mesmo que a detentora não cobre royalties dos produtores rurais, fato previamente comunicado pela empresa.

Além de gerar benefício econômico, a transgenia tem o potencial de criar benefícios socioambientais, por meio da redução de entradas com defensivos agrícolas. Normalmente, eventos geneticamente modificados com resistência a insetos ou com genes combinados têm a capacidade de atingir níveis maiores de benefício socioambiental, pela real diminuição de aplicações de inseticidas. Já eventos tolerantes a herbicidas reduzem o total de ingrediente ativo aplicado nas lavouras, ou então substituem defensivos agrícolas mais tóxicos por produtos menos tóxicos. No caso do feijão resistente ao vírus, a redução de entradas fica por conta da menor aplicação de inseticidas para a mosca-branca, o vetor da doença. No feijoeiro convencional, é preciso um controle intensivo da praga para que o vírus não dissemine pela lavoura. Por esse motivo, os agricultores aplicam grandes quantidades de produtos no controle do inseto. Com a entrada do feijão transgênico, apesar de não resistente ao inseto, sua não suscetibilidade à doença virótica é fato considerável, pois há a diminuição no controle intensivo do vetor, mesmo que este ainda possa causar o dano direto, que é a sucção da seiva da planta, mas sem a transmissão do vírus.

Portanto, prevê-se que o feijão GM gere benefícios socioambientais, considerando-se que a redução das entradas com inseticidas para mosca-branca resulte na redução do uso de água nas aplicações e proteção dos recursos naturais, diminuição no consumo de combustível (óleo diesel para o pulverizador) e, consequentemente, menor emissão de gases do efeito estufa (o CO2 é o gás que mais contribui para o aquecimento global, devido à quantidade de emissão diária), além da redução de ingrediente ativo dos inseticidas direcionados ao vetor da doença.

Outro fator importante que deve ser considerado é o aumento de produtividade. Assim, o agricultor exercerá menor pressão sobre os recursos naturais e o meio ambiente, pois produzirá o grão dentro de um mesmo espaço, sem a necessidade de abertura de novas áreas para atender a demanda pelo alimento. Do mesmo modo, essa tecnologia se mostra eficiente na promoção e manutenção da biodiversidade.

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Considerando o volume de água utilizado nas aplicações de defensivos agrícolas, a adoção potencial da biotecnologia na cultura do feijão contribuiria com a redução do uso de 189 milhões de litros, o equivalente ao abastecimento de 4,3 mil pessoas entre as safras 2012/13 e 2013/14.

A diminuição do consumo de óleo diesel nas lavouras com a potencial adoção de feijão transgênico poderia ter atingido 1,6 milhão de litros, suficientes para abastecer uma frota de 655 veículos leves por dois anos.

No período compreendido entre 2012/13 e 2013/14, a biotecnologia agrícola na cultura do feijão teria a possibilidade de reduzir 4,2 mil toneladas de CO2, o que equivale à preservação de quase 31 mil árvores de floresta ripária. Assim, o cultivo do feijão transgênico é mais uma ferramenta para a proteção dos recursos naturais e manutenção da qualidade de vida da população.

A redução no uso de ingrediente ativo, potencial nos dois últimos anos caso o feijão resistente ao vírus estivesse sendo cultivado, seria de 2,4 mil toneladas, valor expressivo se considerarmos um intervalo de apenas 24 meses.

Em síntese, não se pode menosprezar o potencial da biotecnologia, mesmo para a cultura do feijão, de elevado consumo local, e sem significativa projeção internacional. A tecnologia é importante ferramenta no auxílio da conservação de áreas de remanescentes de vegetação nativa, além de favorecer a redução do uso de água, da emissões de gases do efeito estufa, do uso de óleo diesel e de ingredientes ativos.

Por meio do aumento da produtividade do grão e da redução do custo de produção, a biotecnologia agrícola para a cultura do feijoeiro tem potencial para desempenhar benefícios diretos e indiretos, do agricultor ao consumidor final no mercado varejista (que contemplaria a redução de preço do grão), além de dispensar a abertura de novas áreas, fato que ocasionaria a necessidade de maiores investimentos por parte dos produtores rurais.

É necessário maior efetividade na disponibilidade de sementes ao agricultor, para que o atraso não comprometa ainda mais a captura de todos os benefícios citados, sejam eles econômicos e/ou socioambientais. Para isso, é preciso sinergia entre os processos de aprovação comercial e rapidez na liberação das sementes, alinhando a tecnologia ao maior número possível de variedades adaptadas às regiões de interesse do produtor de feijão. O mercado e os agricultores esperam e precisam dessa tecnologia.

 

 

Jorge Attie é analista de agronegócios na Céleres®. Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Mestre em Fitotecnia pela mesma Universidade. Atua na equipe da Céleres® desde 2007, sendo responsável por análises e estudos na área da biotecnologia agrícola. Atua também na análise das cadeias de valor da indústria de insumos agrícolas no Brasil, com destaque especial para o setor de defensivos, fertilizantes e sementes, além de análises do custo direto de produção das lavouras comerciais brasileiras.