O setor de máquinas agrícolas no Brasil: evolução nos últimos anos e perspectivas

Principais pontos:

Além de otimizar as atividades no campo, a mecanização agrícola é atualmente uma necessidade, tendo em vista a redução do número de trabalhadores rurais. Houve uma queda de 16% da mão-de-obra no campo entre 2005 e 2011 (IBGE), ao mesmo tempo em que o aumento da população urbana e da renda per capita no Brasil demandaram uma maior produção de alimentos.

Com os investimentos nas últimas décadas, a frota de máquinas agrícolas no Brasil é mais nova desde 1982: 30% das máquinas têm menos de 5 anos de uso, segundo estimativas da Céleres®.

Nos últimos anos, a elevação dos preços das commodities agrícolas - especialmente grãos, que possibilitou a expansão do cultivo no País - foi o principal fator que impulsionou as vendas de máquinas. Outros fatores, como crédito subsidiado a juros baixos, também ajudaram a alavancar o setor no Brasil e no mundo.

O Brasil é o quarto maior mercado de tratores agrícolas do mundo, ficando atrás apenas da Índia, China e Estados Unidos. Em 2013, o País apresentou o segundo maior crescimento de vendas, de 17% frente a 2012, de acordo com a Agrievolution Alliance.

Em 2012, o Brasil atingiu a média de 11 tratores por mil hectares de área produtiva (considerada a área arável e as culturas permanentes), ainda muito abaixo do indicador verificado em países desenvolvidos, como os Estados Unidos (27 tratores por mil hectares em 2009) e a Alemanha (82 tratores por mil hectares em 2009), segundo estimativa da Céleres® com base nos dados da FAO.

Entretanto, a desvalorização dos grãos no mercado global a partir da segunda metade de 2014, tendo em vista a tendência de super oferta, tem impactado diretamente nas vendas do setor de maquinário. Os produtores estão mais cautelosos e devem restringir investimentos na atividade, especialmente com máquinas agrícolas.

A “nova frota” de tratores e colheitadeiras adquirida em anos recentes, tanto no Brasil quanto nos EUA, também pode ser um fator que ajude a desacelerar as vendas no curto prazo. Além disso, a troca dessas máquinas pode ter aumentado o estoque de máquinas usadas, que são mais atrativas em momentos de baixa lucratividade no campo.

No longo prazo, a tendência de demanda firme por proteína animal tende, por sua vez, a dar novo equilíbrio aos preços das commodities agrícolas, retomando o crescimento das vendas de máquinas.

A concentração dos produtores agropecuários, observada nas últimas décadas no Brasil, é o principal fator que deve alavancar o aumento de exigências por melhores tecnologias no campo, como máquinas mais eficientes e potentes. Essa também é uma das principais razões para a concentração do segmento de distribuição: algumas das maiores montadoras de máquinas agrícolas caminham para uma estratégia de consolidação dos grupos de concessionárias em vários países, incluindo o Brasil.

A intensificação do uso de máquinas no campo foi um dos principais fatores que ajudaram a impulsionar a produção agrícola brasileira nos últimos anos, permitindo o cultivo em larga escala, viabilizando a produção de mais de uma safra por ano, em algumas regiões, e suprindo a redução de trabalhadores rurais no país.

O Brasil deve colher 193 milhões de toneladas de grãos em 2013/14, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o que significa um aumento de quase 70% em uma década. No mesmo período, a expansão da área cultivada foi de apenas 16%. A crescente produtividade das lavouras (da ordem de 45%, na mesma comparação) ocorreu, principalmente, por meio de investimentos em insumos e máquinas agrícolas. Essa realidade possibilitou melhora de rendimento no campo; aplicação de insumos com maior precisão (graças às novas tecnologias); plantio e colheitas mais ágeis, que viabilizaram o cultivo de mais de uma safra no ano, entre outros fatores.

A mecanização agrícola, além de otimizar as atividades no campo, é atualmente uma necessidade: o número de trabalhadores rurais no Brasil (população rural economicamente ativa) encolheu 16% entre 2005 e 2011, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população rural passou de 64% do total do País, em 1950, para 16% em 2010, também de acordo com o IBGE. Em outras palavras, existe hoje um menor número de pessoas que vivem no campo (redução de 28% entre 1970 e 2010) e produzem alimentos para uma crescente população urbana (aumento de 204% no mesmo período, de acordo com dados do IBGE).

É interessante ressaltar também que o crescimento da produção agrícola nas últimas décadas foi bastante expressivo no Centro-Oeste, Norte e Nordeste. São regiões com populações menores e áreas cultivadas maiores, o que aumenta a necessidade de mecanização no campo.

Com a maior aquisição de máquinas dos últimos anos, a frota de tratores no Brasil é a mais nova desde 1982 (25% com menos de 4 anos e 30% com menos de 5 anos), segundo estimativas da Céleres®. Na década de 70, diversos fatores contribuíram para o crescimento da frota brasileira, como a expansão agrícola, especialmente no Cerrado, e os estímulos governamentais para a produção nacional de máquinas agrícolas e para a aquisição das mesmas, por meio de crédito subsidiado, entre outros fatores. No início dos anos 80, apesar de a frota continuar crescente, houve uma desaceleração das vendas de máquinas, como resultado principalmente da inflação elevada e redução da disponibilidade de crédito.

Como mostra a composição da frota nacional estimada pela Céleres® na Figura 1, dos anos 90 até 2006, um menor crescimento das vendas – e, portanto, menor renovação da frota – contribuiu para um sucateamento das máquinas agrícolas. Em 2006, 67% dos tratores em operação no Brasil tinham mais de 12 anos de uso. Esse percentual caiu para 48% em 2013, mas ainda assim é representativo. Isso significa gastos mais elevados com a manutenção das máquinas, o que aumenta os custos fixos por hectare de terra cultivada e reduz a margem de lucro. Com a depreciação e os maiores gastos, no longo prazo o produtor sente mais dificuldade para renovar seu maquinário.

 

Figura 1. Evolução da frota brasileira de tratores agrícolas por tempo de uso do veículo, em mil unidades.

Fonte: Céleres®, Anfavea. Elaboração: Céleres®.

 

Nos últimos anos, foram as condições de mercado favoráveis aos produtores que impulsionaram as vendas de maquinários para a agricultura. A frota nacional, que estava “sucateada”, começou a ser renovada e ampliada com a maior capitalização dos produtores, resultado da boa rentabilidade obtida com grãos.

Os preços de milho e soja, principais culturas do Brasil, foram impulsionados, recentemente, pela maior demanda por proteína animal no mundo. Isso favoreceu o aumento das margens de lucro dos produtores, o incentivo na expansão de cultivo e o consequente investimento em máquinas agrícolas.

As condições de financiamento, facilitadas pelos programas governamentais a juros baixos (os juros atuais acabam sendo negativos, considerando-se a taxa de inflação) – especialmente o PSI/Finame, do BNDES, criado no segundo semestre de 2009 -, também influenciaram o aumento das vendas de máquinas agrícolas. No caso das colheitadeiras, a taxa média de crescimentos das vendas foi de 23% ao ano entre 2010 e 2013. Nos quatro anos anteriores, a taxa era de 17% ao ano, em média.

No caso dos tratores, entre 2010 e 2013 as vendas cresceram 10% ao ano, enquanto que entre 2006 e 2009, o crescimento foi de 27%. Vale considerar, contudo, que o maior crescimento nesse período veio das maiores vendas de tratores até 135 CV de potência, estimulados também pelo programa “Mais Alimentos”, do Pronaf, a partir de 2008.

Neste cenário, em 2013 as vendas de tratores de rodas atingiram o patamar recorde, acima de 65 mil unidades, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – Anfavea. O Brasil foi o quarto país com maior mercado de tratores agrícolas no mundo naquele ano, ficando abaixo apenas da Índia (venda de 619 mil unidades em 2013), China (445 mil unidades) e Estados Unidos (201,8 mil unidades), de acordo com estimativas da Agrievolution Alliance. O crescimento de vendas entre 2012 e 2013 (de 17%), entretanto, foi o segundo maior entre os principais mercados.

Considerando-se as vendas de 2013, por área produtiva (arável e cultura permanente), o Brasil ainda ficou atrás de países como Estados Unidos, Turquia, Índia, China e Japão (Figura 3).

O número de tratores utilizados por hectare de terra produtiva no Brasil (considerando-se a área arável e culturas permanentes) também é relativamente baixo e cresceu apenas 6% entre 2006 (quando atingiu o mínimo, dada a expansão de área agrícola) e 2012, saltando para 11 tratores por mil hectare. A título de comparação, nos Estados Unidos, em 2009, esse indicador era de 26,7 tratores por mil hectares, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Já na Alemanha, os dados mais recentes da FAO, de 2000, indicam 82 tratores por mil hectares.

Figura 2. Mercado global de tratores em 2013. Fonte: Agrievolution Alliance, FAO. Elaboração: Céleres®.

Figura 3. Número de tratores agrícolas utilizados por mil hectares de terra produtiva (arável e área com culturas permanentes).

Fonte: Céleres®, FAO. Elaboração: Céleres®.

Nota: As séries variam de acordo com a disponibilidade de dados para cada país.

 

O baixo crescimento desse indicador no Brasil deve-se ao fato de que, além da expansão da frota, houve também aumento da área de cultivo, diluindo a concentração de tratores por área. Além disso, especialmente nos últimos anos há a tendência de troca de um maior número de tratores e colheitadeiras de baixa potência por menor quantidade de máquinas, porém maiores, mais potentes e com melhor tecnologia.

Segundo dados da Anfavea, entre 2009 e 2013 o crescimento médio anual das vendas de tratores foi de 54% para a categoria acima de 225 CV e 53% para a categoria entre 181 e 225 CV. Já para a categoria abaixo de 135 CV, houve redução, com decréscimo médio anual de 12%.

No caso das colheitadeiras, o cenário é similar. Algumas categorias de elevada potência, classes 7 e 8 (de 323 a 484 CV), tiveram crescimento médio anual das vendas de 46% entre 2009 e 2013. Já a categoria inferior, classe 4 (até 214 CV), registrou taxa média anual de 6%.

Desvalorização das commodities agrícolas afeta vendas de máquinas agrícolas em 2014

No segundo semestre de 2014, a queda de preços das commodities agrícolas no mundo – especialmente grãos - impactou negativamente no setor de máquinas. Desde o início do ano, a indústria de máquinas agrícolas tem sentido a redução nas vendas em virtude do receio dos produtores quanto à rentabilidade obtida na safra 2013/14. Inicialmente, uma queda da produtividade de milho e soja em diversas regiões produtoras – devido às adversidades climáticas - colocou os agricultores em alerta, com reduções evidentes nos investimentos em maquinário. Posteriormente, o recuo de preços limitou a lucratividade obtida com grãos.

É possível observar a estreita relação entre o preço da soja e o número de vendas de maquinários na Figura 4. Apesar de não representar, de fato, a margem de lucro dos sojicultores, os preços recebidos refletem bem como o comportamento da receita com a oleaginosa impactou de forma geral no desempenho do setor de máquinas.

É preciso ressaltar, contudo, que o ano de 2013 atingiu um patamar recorde das vendas de máquinas e que, embora haja uma redução em 2014, as vendas ainda devem ficar em níveis relativamente elevados. De janeiro a novembro deste ano, dados da Anfavea mostram que as vendas de máquinas agrícolas caíram 15% em relação ao mesmo período de 2013, sendo um recuo de 16% para tratores de rodas e de 29% para colheitadeiras. Se comparadas aos nove primeiros meses de 2012, contudo, as vendas de 2014 ainda estão mais elevadas, com acréscimo de 1% no caso de tratores de rodas e de 9% para colheitadeiras.

Para o curto e médio prazos, as expectativas quanto à entrada da safra de soja da América do Sul e aumento da oferta mundial em 2014/15 tendem a pressionar o mercado para níveis abaixo dos observados nos últimos anos, apesar da demanda global em alta pelo grão. Esse cenário pode novamente limitar o crescimento do setor de maquinário. Para o milho, a elevada oferta da safra 2013/14 norte-americana, a elevada produção global e os receios quanto à menor importação chinesa, devido aos grandes estoques no país asiático, também tendem a pressionar o mercado e reduzindo a margem de lucro dos produtores na safra atual.

Em contrapartida, para os agricultores brasileiros, a alta do dólar frente ao Real que vem ocorrendo desde setembro/14 pode dar novo fôlego para os produtores, melhorando a receita com as exportações (que representam cerce de 70% da produção nacional).

No geral, os produtores estão mais cautelosos e podem restringir investimentos na atividade, especialmente com maquinário. Essa situação não ocorre só no Brasil: nos Estados Unidos, as montadoras também estão atentas a um provável movimento baixista para 2015, tendo em vista a menor margem de lucro dos produtores e até prejuízo, como vem sendo esperado para os produtores de milho, principal cultura do país. Já existe, inclusive, uma menor oferta de lançamentos de produtos no mercado.

A “frota nova” de tratores e colheitadeiras adquirida nos anos recentes, tanto no Brasil quanto nos EUA, também pode ser um fator que ajude a desacelerar as vendas no curto prazo. Além disso, a troca de máquinas pode ter aumentado o estoque de equipamentos usados, que tornam-se, inclusive, mais atrativos em momentos de baixa lucratividade por parte dos produtores.

A tendência é de que o cenário relativamente pessimista para o mercado de grãos no médio prazo atinja especialmente o segmento de grandes máquinas. Por outro lado, as vendas de máquinas para a produção pecuária podem ganhar novo fôlego com a alta de preços nesse setor. Outro fator que pode dar alguma sustentação para as vendas é a revitalização do Moderfrota (Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras) e a permanência do PSI/Finame a juros relativamente baixos durante a safra 2014/15.

No longo prazo, a expectativa de demanda firme por proteína animal deve dar novo equilíbrio aos preços das commodities agrícolas – o que melhoraria a lucratividade dos produtores -, retomando o crescimento das vendas de máquinas. Existe, de fato, um grande potencial de crescimento deste setor no Brasil, tendo em vista o potencial crescimento da agropecuária no País.

Figura 4. Evolução das vendas de máquinas agrícolas no Brasil (em mil unidades) e do preço médio da soja disponível em termos nominais, em reais por saca de 60kg.

Fonte: Céleres®, Anfavea. Elaboração: Céleres®.

 

O setor de máquinas atravessa uma fase de transformação da agropecuária brasileira, que tende a demandar cada vez mais equipamentos maiores, com nível mais elevado de tecnologia, dado o crescimento da agricultura de precisão, e capazes de proporcionar um melhor aproveitamento da segunda safra. Tende a ocorrer, de forma cada vez mais acentuada, uma substituição de várias máquinas por um menor número de tratores ou colhedoras com melhor desempenho e agilidade.

A concentração dos produtores agropecuários, que vem sendo observada desde as últimas décadas no Brasil, é o principal fator que alavanca as exigências maiores por melhores tecnologias no campo. Esse também é um dos principais direcionadores de uma concentração do segmento de distribuição: algumas das maiores montadoras de máquinas agrícolas caminham para uma estratégia de consolidação dos grupos de concessionárias em vários países, incluindo o Brasil.

Nos Estados Unidos, dados do Ag Equipment Intelligence mostram que o número dos grandes grupos de concessionárias de máquinas agrícolas caiu de 187 em 2012 para 184 em 2013. Apesar de parecer uma redução modesta, é a primeira vez que ocorre uma diminuição no número de concessionárias, desde 2009, e a tendência é contínua nos EUA: existem tanto processos de fusões de grandes concessionárias como o fechamento ou realocação de algumas unidades. As “super concessionárias” que começam a surgir em alguns países reforçam o processo de economia de escala, além de contarem com o capital necessário para se manterem no atual ambiente competitivo.

Aline Fero: Analista de Agronegócios da Céleres®. Engenheira Agrônoma formada pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ-USP) e Mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Atua na equipe Céleres® desde 2014, sendo responsável por análises de mercado de soja, milho e algodão, além de projetos ligados ao setor de insumos e máquinas agrícolas.